Todo mundo é dev (ou não)

O tal do programador precisou passar muito tempo explicando aos contratantes e clientes que não existia mágica na hora de desenvolver aplicativos/softwares/programas/chame como quiser. Não era simplesmente sentar a bunda em uma cadeira confortável, explicar pro computador a funcionalidade que queria e esperar oito horinhas até a receita ficar pronta. Não era.

A inteligência artificial derrubou uma barreira grande, que é a conversa homem-máquina. Programador era meramente um tradutor de linguagem binária. Pense que o computador só entende 0 e 1. Programadores usavam linguagens de código pra que, as palavras escritas numa certa ordem, fossem interpretadas como 0 e 1, e o resultado desejado fosse alcançado.

Em que pese o fato de que desenvolver um programa não é só isso. Se você pensa em distribuir comercialmente, tem que ver o uso de fontes proprietárias, ícones, efeitos sonoros. Tem milhões de coisas envolvidas no licenciamento comercial. Agora, se o desenvolvimento é pra uso exclusivamente pessoal, sem compartilhamento, a barreira pra desenvolvimento já era. Que tempo maravilhoso pra estar vivo.


Você já fez programa hoje?

O Google anunciou nesta semana que vai permitir hospedar, de forma privada na Play Store, aplicativos criados via Google Ai Studio. Como o código vai ser todo gerado pela IA da empresa, não vai precisar passar pelo processo padrão de revisão. Além disso, nos próximos meses será possível compartilhar esses aplicativos próprios com amigos e familiares, sem precisar de fazer gambiarra baixando um APK pra instalá-los.

Porque importa? Hoje, pra publicar um aplicativo na Play Store, o desenvolvedor ou desenvolvedora precisa pagar uma taxinha de 25 dólares. Se você quer desenvolver de forma independente, dá pra distribuir via APK. Por enquanto. A Google vai fechar o Android em breve, e a instalação de APKs por fora da loja vai ficar ainda mais difícil – só quem precisou testar um app desenvolvido por conta sabe a quantidade de mensagens que você recebe do sistema informando que instalar coisa de terceiros pode afetar o aparelho, causar invasão de conta bancária e tudo mais.

Hospedar um aplicativo pessoal na Play Store, sem pagar taxas e sem precisar distribuir via APK, derruba mais uma barreira. Imagine que você quer criar um aplicativo pra organizar o almoxarifado da empresa onde trabalha, por exemplo. Era necessário pagar a taxa pra publicar na Play Store ou compartilhar o APK com cada pessoa que ia usar o app. Era você vendo a mensagem de “PODE SER PERIGOSO INSTALAR ISSO AÍ” em algumas dezenas de celulares. Agora você pode entrar no Ai Studio, pedir “desenvolve aí um aplicativo pra eu controlar o almoxarifado da firma, assim, assim e assado”, e só compartilhar o link com a turma. Quer dizer, não AGORA, mas em alguns meses. Baita sacada pra criar aquele aplicativo pro seu clube do livro, hein?


Internetês

Um APK é o arquivo usado para instalar um aplicativo em celulares Android. Ele funciona como uma caixa que tem a receita e os ingredientes necessários pra um aplicativo funcionar. Quando você publica o app na Play Store, ela faz todo o trabalho de instalar no seu aparelho. Se você não publica, é necessário empacotar o app e tudo aquilo que ele precisa pra rodar – fontes, arquivos de imagens, bibliotecas de código, etc – e é aí que surge o APK, ou Android Package Kit.


Rapidinhas

Eletrônico parado em casa? – Os Correios agora oferecem um serviço gratuito para o descarte correto de lixo eletrônico, como celulares velhos, cabos quebrados e baterias antigas. A iniciativa está disponível em mais de 6 mil agências espalhadas por todo o país. (Tecnoblog)

Um espião no ChatGPT – Um engenheiro da OpenAI, empresa criadora do ChatGPT, foi preso após ser acusado de esconder um dispositivo de gravação secreto em uma sala de reuniões no escritório. A própria empresa descobriu o equipamento e acionou as autoridades, resultando na prisão do funcionário pelo governo. (The Verge, em inglês)

Peguem os chapéus de papel alumínio – O governo dos Estados Unidos alertou que hackers da Coreia do Norte conseguiram se infiltrar em dezenas de empresas americanas. Eles usam identidades falsas para conseguir empregos remotos em tecnologia e, de dentro dessas companhias, ajudam seu país de origem a roubar informações e dinheiro. (TechCrunch, em inglês)

O chip que recupera a visão – A empresa Science Corporation realizou com sucesso o primeiro implante de seu chip restaurador de visão em um paciente com a doença de Stargardt, uma condição genética que causa a perda gradual da visão central. A tecnologia, chamada PRIMA, funciona como uma tela microscópica na retina que substitui as células danificadas e envia sinais visuais diretamente para o cérebro. Nas palavras de Max Hodak, o chefão da empresa, “queremos descobrir como estendemos não apenas o tempo de vida, mas a saúde”. (TechCrunch, em inglês)

Polarizaram a… energia solar? – Nos Estados Unidos, um misterioso grupo político, que ao mesmo tempo apoia a energia solar, começou a financiar propagandas de ataques extremamente agressivas para as eleições de meio de mandato, misturando o debate ambiental com estratégias partidárias radicais. A história é no mínimo… interessante? (Wired, com paywall, em inglês)

Epic vibecodando novo launcher – A Epic Games lançou uma versão de testes de seu aplicativo de jogos para computador (o Epic Games Launcher) totalmente reformulada. A promessa é que o programa ficou muito mais rápido e moderno, funcionando com mais agilidade do que o seu principal concorrente, o Steam. Por enquanto, como é uma versão de testes (chamada de Preview), a própria empresa avisa que o aplicativo ainda pode apresentar alguns pequenos erros e instabilidades. (Ars Technica, em inglês)


Pra refletir

Concluindo a edição de hoje, convém pensarmos: está ficando fácil desenvolver e publicar um aplicativo não-comercial. Até a página 2. Na contramão dessa facilidade, quem desenvolve começa a ficar mais limitado. Só em plataformas oficiais, com conta verificada e cada linha de código analisada minuciosamente (tá, talvez o minuciosamente seja exagero). Aplicativos que eventualmente possam ferir os termos de uso, como listas de canais e emuladores de videogames antigos, pra ficarmos em exemplos mais simples, tendem a desaparecer. Quais possibilidades esse mundo mais prático e fechado de desenvolvimento podem trazer? Veremos.


A esmola é demais?

Revolução dos devs

Há alguns anos, vimos a inteligência artificial ganhar cada vez mais espaço no mercado. Centenas de livros, linhas de jornal, material educativo, tudo que até então era propriedade intelectual construída ao longo de séculos foi tratado como mero alimento, material de treino pra um produto inovador.

A IA também custou algumas centenas de milhares de vagas de emprego mundo à fora. Desenvolvedores, até então caros e tratados com tudo do bom e do melhor, foram relegados ao segundo, terceiro escalão da tecnologia. Quem ficou, virou babá de inteligência artificial. Agora, quem entende um pouco mais descobriu que pode usar a ferramenta para engenharia reversa. Em aplicativos, jogos… Começou o contra-ataque dos devs e, talvez, mais uma revolução tecnológica.


A esmola é demais?

Durante muitos anos, a Adobe reinou sozinha quando o assunto era produção de audiovisual na internet. Edição de fotos? Lightroom. Criação de banners e flyers? Photoshop. Vetorização? Ilustrator.

A Adobe ganhou muitos rivais, como o Canva – que no ano passado teve 265 milhões de usuários ativos, segundo dados da própria plataforma. E essa concorrência causou mudanças no modelo de negócio. Antes, a empresa cobrava um valor exorbitante pela licença vitalícia de cada versão de cada aplicativo – você comprava a versão CS5 do Photoshop, e quando saísse a CS6, tinha que pagar outra licença. E atualmente funciona, como quase todos os softwares disponíveis no mercado, sob o modelo de assinatura: você paga mensalmente uma quantia X, e pode usar a suíte base dos aplicativos. Ah, se quiser mais funções, como o uso de IA, obviamente precisa pagar a mais pelos créditos.

E na semana passada, veio um golpe inesperado pra Adobe: alguém decompilou os programas da empresa, reescreveu tudo em Rust e publicou como open source na internet, sob o nome Art Craft. Simples assim. Photoshop virou Photocraft. Um detalhe é que esses programas agora estão disponíveis para Linux também, com a decompilação. O desenvolvedor alega que fez o código no modelo clean room, ou seja, ele não copiou o código proprietário do programa, somente o que cada botão faz. Se poder dar problema jurídico? Com certeza. Porém o meu questionamento é outro: a esmola não é demais? O código de cada programa está aberto, eles são distribuídos de forma gratuita, sem nenhuma assinatura, pegadinha, compra, nada. Quem quiser, pode fazer uma assinatura mensal de contribuição, que dá alguns mimos, mas nada além disso.

Quer conferir a suíte de aplicativos completa? É só seguir este link.


Rapidinhas

Firefox ganha versão paga com controle de dados e IA – O navegador anunciou uma versão paga voltada para empresas, unindo a navegação na internet a uma central de controle administrativo. Essa nova modalidade promete ferramentas avançadas para proteger dados confidenciais e recursos de inteligência artificial voltados para o ambiente corporativo. (Tecnoblog)

Consoles da Anbernic na mira das autoridades – A Entertainment Software Association (ESA), associação que representa a indústria de videogames, classificou os portáteis da marca Anbernic como dispositivos que facilitam a pirataria, chamando-os de “superfalsificações”. Se você não conhece ainda, a Anbernic fabrica emuladores portáteis. São aparelhinhos no estilo do popular R36S. Embora esses aparelhos sirvam para rodar jogos antigos, o problema real não é a fabricante do console, mas sim vendedores terceirizados que comercializam esses dispositivos já lotados de jogos pirateados em cartões de memória. (Ars Technica, em inglês)

IA na sua torradeira – A famosa marca de eletrodomésticos Breville lançou uma torradeira futurista chamada Eye Q, que usa sensores ópticos para “enxergar” e medir o quão escura a sua torrada está ficando. A ideia é garantir que o pão fique no ponto certo automaticamente, usando tecnologia de ponta na cozinha de casa. (Wired, em inglês)

Bigtechs influenciando eleições – Katie Harbath, ex-chefe de políticas globais de eleições do Facebook, lançou um livro chamado Disrupting Politics, algo que pode ser traduzido como Rompendo a Política. A obra revela os bastidores de como a rede social mudou a forma como políticos fazem campanha e como a empresa lidou com eventos políticos marcantes ao longo da década de 2010. Se você é negacionista de como as bigtechs podem mexer na política, é hora de rever seus conceitos. (Stratechery, em inglês)

IA na educação básica – Os Emirados Árabes Unidos decidiram incluir a Inteligência Artificial (IA) no aprendizado de crianças que frequentam a educação infantil. A ideia do governo é fazer com que o uso dessas tecnologias seja ensinado desde cedo, com a mesma importância que se dá para o básico da leitura e da escrita. (Rest of World, em inglês)


Internetês

Decompilar é tentar transformar um programa pronto de volta em um código mais fácil de entender. É como desmontar um aparelho para descobrir como ele foi montado — mas nem sempre dá para recuperar o projeto original exatamente.


Os finalmente

A partir desta edição, sem algoritmo passa a ser uma newsletter diária. Disponibilizada de forma gratuita no substack e também no meu blog, em semalgoritmo.com.

*Edição fechada às 18h de 14 de outubro de 2026


Ter a própria casa

Imagem decorativa. A ilustração, feita por vectorjuice, mostra um homem coordenando a construção de uma casa.
Foto por by vectorjuice / Freepik

A internet em 2026, bem como nos últimos cinco ou seis anos, virou a casa das plataformas. Se você quer criar vídeos, tem como opção o YouTube, o Tiktok, o Instagram e outras redes que funcionam bem pra isso. Quer escrever? Substack, Buttondown e por aí vai.

Muitas dessas plataformas permitem ao usuário começar de graça, mas se você quiser monetizar o conteúdo, vai ter uma dor de cabeça aqui e ali pra se adequar às regras – que podem mudar do dia pra noite. Sempre quis criar conteúdo pra internet, mas a ideia de obedecer uma plataforma e depender de um algoritmo me aterroriza. Não que eu vá criar algo disruptivo, ou que desrespeite leis. Longe disso. Os meus pensamentos e gostos são os mais ordinários possíveis.

É que a ideia de construir meu jardim digital e deixar isso na mão de gente que pode simplesmente apagar meu perfil e não dar uma desculpa decente pra fazer isso. Então, se você caiu aqui por acaso, considere que este blog não é nada mais do que um espaço pessoal que poderia existir em qualquer rede social, mas optei por fazê-lo fora das redes comerciais. Há um custo pra manter no ar? Obviamente. Pra minha ansiedade, porém, esse custo é infinitamente menor do que estar nas mãos das big techs.